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O Português e os erros “clássicos”

Autor: José Everaldo Nogueira Júnior
Publicado em:   16/11/2009 às 12:32:54




0. INTRODUÇÃO

Tema

Neste artigo, abordarei alguns erros históricos cometidos por alunos tanto de Ensino Fundamental, como do Médio e Superior. Erros na escrita, aos quais os professores em geral costumam dispensar tratamento de repulsa, muitas vezes sem ter a menor noção da fonte geradora do erro, e tantas outras vezes sem saber as possíveis conseqüências de sua intervenção. Neste sentido, o professor – seja ele de Português ou de qualquer outra disciplina – perde uma enorme oportunidade de aproximar-se de seu aluno, de ensinar a ele algo importante a partir do próprio erro, e uma oportunidade de expor seu conhecimento – o que certamente traria resultados positivos diante da imagem que o aluno cria dele.

Fica claro que nosso enfoque será muito mais voltado para a área da linguagem, com especificação para a Língua Portuguesa. Entretanto, espera-se que o cerne do que diremos aqui seja transportado para outros campos do saber, uma vez que a relação professor-aluno-aprendizagem pressupõe necessariamente a noção de erro e a intervenção do professor.

Embora utilizemos aqui a denominação “professor”, estamos muito longe daquela distinção meramente linguajeira que se refere a professor, educador, mediador, facilitador e tantos outros “or” que não levam a nada se a competência e a eficiência não brotarem diariamente no trabalho daquele ser humano que se dispõe diuturnamente a compartilhar com prazer e responsabilidade tudo aquilo que aprendeu na vida, e não apenas nos bancos escolares.

Objetivo

Nosso objetivo aqui é, sobretudo, o de oferecer uma maneira a mais de intervenção do professor em sala de aula, intervenção esta que tem a ver tanto com sua formação pessoal e profissional quanto com sua prática diária no trato com a linguagem e com o aluno. Para tanto, a princípio vamos nos valer de alguns conceitos de que precisaremos para fundamentar nosso pensamento. Todavia, ao expressar tais conceitos, não nos remeteremos freqüentemente a autores, obras, teorias etc. Vamos fazê-lo apenas quando for essencial. Neste sentido, falaremos dos conceitos de Norma e Erro, Descrição e Adequação.

Logo a seguir, exporemos alguns dos erros mais comuns, colhidos de redações de candidatos a vagas em faculdades públicas e particulares. Posteriormente, refletiremos rapidamente sobre o processo de formação de professores, especialmente dos professores que lidam diretamente com a Língua Portuguesa, e de forma geral ao processo de formação de todos os professores, já que, via de regra, todos lidam com um certo tipo de linguagem. Nesta breve explanação, ressaltaremos o teor normativo de sua prática, gerado por uma concepção subliminarmente clássica ou positivista.

Ressaltaremos a importância do conhecimento histórico na formação e na prática diária do professor. Para exemplificar o que vamos dizer, apresentaremos um trecho de um dos sermões de Antônio Vieira, o Sermão XXVII, no qual o pregador defende a legitimação da escravidão. Apões esta breve leitura, provaremos como aquilo que os professores apontam hoje como erros crassos, inadmissíveis ou inaceitáveis, foram, na verdade grandes acertos sob a pena de grandes escritores, em séculos passados.

Com base nesta argumentação, faremos nossa proposta não só aos novos professores que serão formados por este centro formador de conhecimento, mas também àqueles que já militam diariamente na educação de outros, que também serão professores.

1. ALGUNS CONCEITOS NECESSÁRIOS

O primeiro conceito de que nos valeremos aqui é o de Norma, pois ele regerá boa parte do que vamos dizer, inclusive sobre outros conceitos, também necessários a esta exposição.

Nosso dicionarista mais reconhecido, Aurélio Buarque de Hollanda, define norma como Aquilo que se estabelece como base ou medida para a realização ou a avaliação de alguma coisa; princípio, preceito, regra, lei; modelo, padrão. Embora tal definição seja de ordem geral, ela serve aos nossos propósitos, uma vez que toda a prática da maioria dos professores atuais centra-se neste conceito. Assim é que tanto em suas aulas quanto em suas avaliações, os professores manifestam em seu discurso a tendência quase inevitável para estabelecer os limites claros entre o que está e o que não está de acordo com a norma pré-estabelecida.

Para exemplificar isto, vamos nos referir á norma lingüística – para podermos falar com um pouco mais de propriedade, já que esta é nossa área de trabalho há já alguns anos. Como quase tudo no mundo, a norma lingüística também tem início com os gregos e depois com os latinos. Como um elemento hegemônico durante séculos, a cultura greco-latina espalhou-se pelo mundo, conquistando pela força centenas de territórios, aos quais se impunha. Não demorou muito para que os pilares lingüísticos fossem abalados em decorrência dos infinitos contatos com povos de línguas diferentes, que se viam forçados a utilizar a língua do dominador. Ao fazer isto, os dominados impingiam à língua dominadora o seu próprio modo de concebê-la, de pronunciá-la, de nomear as coisas, de relacionar os signos etc.

Devido à grande diversidade que se ia impondo cada vez mais frente à língua dominadora, seus pensadores viram-se obrigados a estabelecer alguns padrões de conduta lingüística, a fim de que não houvesse nenhum tipo de corrupção àquele que era um de seus maiores traços de identidade social: a língua.

Para tanto, com vistas à pureza lingüística, os pensadores estabeleceram um padrão capaz de distinguir aquilo que era certo, daquilo que era errado. Daí nascem os conceitos de Certo e Errado que regem a prática de muitos professores em nossos dias. Certo era a manifestação lingüística que estivesse de acordo com o que falavam e escreviam os autores considerados clássicos, aqueles que representavam a cultura greco-latina, aqueles que desfrutavam do prestígio social. Falar ou escrever como eles significava (e ainda significa) falar e escrever corretamente. Por oposição, qualquer enunciação que fugisse ao modelo estabelecido era considerada errada; era erro, era desvio, era falha, era demonstração de incapacidade para dominar a língua culta, a língua padrão.

É de se estranhar, e muito, que este modelo de procedimento seja válido até hoje. As gramáticas pedagógicas insistem em ressaltar e apresentar, como padrão a ser seguido, um grupo de excelentes autores – importantes, é verdade – mas representantes de um estado de língua de séculos passados. Trata-se de um modelo que não atende mais às necessidades de nossos alunos, e que, no entanto, insistimos em lhes enviar goela abaixo, sob pena de serem retidos ao final do ano.

Pior que isto é o fato de tacharmos esses alunos como incompetentes, como pessoas pouco capazes de dominar a língua padrão, como pessoas menos favorecidas de entendimento. Apresentamos agora alguns exemplos de ocorrências lingüísticas reais, que representam este tipo de desvio da norma estabelecida, seja do ponto de vista ortográfico, morfológico, sintático ou semântico.


... o Brasil é conhecido internacionalmente por ser um país onde não há impunidade para criminosos.
... desde sua independência, houve-se falar em um brasil mais justo, pelo qual os políticos devem estarem dispostos a lutarem...
... temos que se unir por um Brazil com muinta justiça.
Nesse país não há vulção, terremoto, marremoto, furação...
... o Brasil é um dos pais mais rico do mundo desde sua descoberta, pelo Herói D. Pedro I, quando ele gritou independência ou morte...
... não pode haver mais desvios de verbas, pois faltarão recursos para acabar com a fome e a analfabetização.
... não existe um auto grau de instrução; existe um baixo nive educacional
... devemos cuidar dos idosos que, quando jovens, eram aceitos pela sociedade e hoje, largados em axilos.
Mesmo com 500 anos, ainda existe um péssimo distribuimento de renda e o justo paga pelos pegadores.
...começamos a notar que dentro de alguns anos atrás...
... devemos respeitar o procimo porque a cituação está dificio.

A palavra corrupção assumiu várias formas: corupção, corrupissão, corrupido e outras. Houve também interessantes erros ortográficos, como: asasinato, envestimento, trapasseiro, díguino, exencial, encontra partida (em contrapartida), em fim (enfim), subil (subiu), poriso (por isso), porai (por aí) e muitos outros.

Tudo isto demonstra que à boa parte dos nossos alunos, falta leitura de livros e de mundo. Curiosamente, a maior parte dos erros cometidos pelos alunos é constituído de palavras que estão expostas a todo momento na mídia. Estar em contato constante com certas palavras e certas construções deveria atenuar progressivamente as deficiências de produção textual, entretanto, nesta instância, não há uma relação direta entre o que se consome e o que se produz.

Mas nós precisamos admitir que há erros e erros. O professor Evanildo Bechara, um dos maiores estudiosos da Língua Portuguesa em nossos dias, certa vez, contou-nos um episódio acontecido com um colega seu, um antigo professor da Universidade Federal Fluminense. Passo a contá-la. Quando se dirigia para a Universidade, este professor foi abordado por um garoto que, a despeito do grande número de pessoas por perto, não titubeou e o assaltou. Indignado, o professor pôs-se a gritar, mas ninguém viera ao seu socorro. Mais indignado ainda, o caminhou apressadamente para a Universidade e lá desabafou com os amigos, dizendo que era um absurdo ele gritar tanto e ninguém o ajudar. Curiosos, os demais professores quiseram saber o que ele gritava. Ao que ele respondeu prontamente: “Ora, eu gritava: Peguem-no! Peguem-no!” Os professores riram discretamente e rapidamente souberam por que ninguém socorreu o professor: raríssimas são as pessoas que utilizam, hoje, a corretíssima construção “peguem-no!”. Ao ouvir isto, uma pessoa normal fica esperando e se perguntando: pegar no quê?

Este é apenas um exemplo para reforçar a idéia de que embora o professor assaltado estivesse certo, ele estava errado. Explicamo-nos: naquele momento do assalto, ele deveria ferir a norma culta e gritar algo como “Pega ele! Pega ladrão! Pega ele!”. Errando, ele estaria mais certo. Isto quer dizer que nem sempre o certo é certo, e nem sempre o errado é errado. Ou, para aumentar o trocadilho, há momentos em que errar é correto.

Isto nos leva ao conceito de adequado e inadequado. Neste sentido, um erro só é considerado erro mesmo, se for comparado a um certo modelo. No caso do professor assaltado, ele estava certo com relação à norma culta, mas estava errado com relação à situação em que se encontrava. Estava, portanto, inadequado. Não se fala mais em certo ou errado, mas em adequado e inadequado – o que se define como apropriado ou não a um dado contexto.

Contemplem-se as ocorrências abaixo, comuns no Português em uso no Brasil na época de Antônio Vieira.

• homecidio, vertude, piqueno, mintiroso, resplandor, piadoso
• embaxo, bejar, otono, manera, falô, estora
• cereija, bautizar, oulhar
• sembrante, pubrico, brasfemar, frauta, prantar
• alevantar, assossego, arrenegar, alagoa
• exprimentar, esprito
• mió, pió, muié, espeio
• falano, dizeno, partino
• vamo, lápi
• corrê, falá, fáci, cascavé
• bastaõ, cativaõ, chamaõ, estaõ, geraõ, passaõ, respiraõ, tiraõ, ve, verificaõ
• à manhã, com tanto, em fim, em quanto, quatro centas, seis centos, tal vez
• compuzeram, dezatino, dispoz, izenta, pizados, puzeram, quiz, quizeram
• acodio, apparecéo, Ceo, cobrio, consentio, degrâos, Deos, Deoses, descobrio, imprimio, maos, molheres, morréo, nao, nascéo, podesse, recorréo, remio, restituio, seguio, sojeiçaõ, sojeitar, subio, succedéo, testimonho, troféos, valéo, vendéo
• cõ, comtudo, compara, cõparaçaõ, cõsentio, cõsideraçaõ, huã, hum, ametade, mudãça

Qualquer professor que se deparar com textos que apresentam ocorrências como as que estão expostas acima saberá que tem ou um grande problema nas mãos, ou uma grande oportunidade de aprender e ensinar algo. Se quiser agir como o pessimista, ele verá nessa oportunidade uma dificuldade; mas se quiser tomar uma postura otimista, ele verá nessa suposta dificuldade uma oportunidade para aumentar tanto o seu conhecimento como o do aluno.

Certamente, muitos de vocês ficaram horrorizados com a seqüência de palavras erradas, frases de sentido absurdo e outras ocorrências que apresentamos acima. Muitos já encontraram vários desses exemplos; muitos já os cometeram – seja no Ensino Fundamental, no Médio ou mesmo agora, no Superior.

2. DA FORMAÇÃO À ATUAÇÃO DO PROFESSOR

Todos sabemos que a imensa maioria dos professores tem uma formação normativa e positivista que justifica sua prática quase maniqueísta em sala de aula, que faz com que seus alunos cheguem perto das raias da esquizofrenia.

Quando nos referimos a professores, falamos de professores das mais diversas áreas. Muitos historiadores acreditam que os fatos narrados nos livros didáticos são mesmo inteiramente verdadeiros. Psicólogos defendem ferrenhamente Freud, ou Jung, ou Lacan. Pedagogos acreditam piamente em Valon, Vigotsky, Paulo Freire, Piaget. Enfim, poderia ser muito grande a lista daqueles que julgam verdadeiro e aceitável apenas um padrão e o incutem nos alunos, rechaçando qualquer manifestação contrária.

Não é diferente com os professores de Língua Portuguesa, que acreditam piamente só a norma culta é a correta, só ela tem prestígio, só ela é eficiente etc. Está certo que ela tem seu valor, e é grande, é muito importante o domínio da variante padrão. Mas ela não é tudo; ela não representa todas as possibilidades de utilização que a língua oferece. Ela é apenas uma, dentre muitas. O professor competente sabe que é dever da Escola ensinar a língua culta, para que seus alunos tenham maiores chances em exames vestibulares, em testes para conseguir uma vaga numa empresa, enfim: em situações formais.

Mas isto não é tudo: o professor tem de ensinar o certo, e tem de mostrar que, visto de outra perspectiva, esse certo pode estar errado. Tem de mostrar que tudo depende do contexto de uso da língua (ou da loucura, ou do sonho, ou do descobrimento do Brasil, ou de uma teoria econômica, ou de um pensamento político...).

Contudo, não é todo professor que tem esta visão aguçada e global do seu objeto de ensino. Não é todo, porque nem todos foram em formados, e nem todos se formaram direito – independentemente de terem tido boa formação. Uma coisa é ser formado; outra é formar-se bem.

Formar-se bem tem mais a ver com o aluno do que com o professor ou com a instituição. Assim como conhecemos pessoas formadas por grandes universidades e que eram extremamente pedantes e arrogantes, tivemos o prazer de ver pessoas formadas por universidades ditas pequenas e sem prestígio, mas que a despeito deste preconceito, tornaram-se grandes profissionais. Trata-se de pessoas que não se contentaram com o ensino que lhes era dado; pessoas que lutaram para superar suas deficiências; pessoas que não se deixaram abater pelas pouquíssimas horas de sono; pelo salário irrisório; pelos ônibus e metrôs lotados; ou seja lá por que dificuldade for. Trata-se de pessoas que se recusaram a ser medíocres.

O professor de Língua Portuguesa bem formado reconhece que saber só gramática, ou só saber gramática, ou saber gramática só, não faz dele um professor de língua materna. Ele precisa de algo mais, de algo além, que ele pode encontrar na tão badalada interdisciplinaridade. O profissional de Letras hoje, para que seja minimamente competente, tem de ter noções, ainda que parcas, de Psicologia, de Sociologia, de Antropologia, de Filosofia, de História, e, sobretudo, de história da língua que ele ensina.

Vamos nos ater agora à importância do conhecimento histórico na prática diária do professor. Mais uma vez, enfatizamos aqui que, por se tratar de nossa área de atuação, falamos mais da Língua Portuguesa, mas esperamos que os demais profissionais saibam transformar em conhecimento as informações que aqui divulgamos.


3. A HISTÓRIA COMO FERRAMENTA

A fim de apoiar o que vamos dizer a partir deste momento, gostaríamos de expor o trecho final do Sermão XXVII, de Antônio Vieira. Este sermão é de 1633, pregado a uma comunidade católica de escravos, denominada Irmandade da Senhora do Rosário.

Evidentemente houve dificuldade de leitura deste texto. Podemos elencar algumas razões para este acontecimento. Dentre elas: a diferença na grafia dos caracteres; tratar-se de textos religiosos que não estamos acostumados a ler; tratar-se de um Português extremamente antigo. Pode ser que qualquer uma dessas justificativas ou todas elas e muitas outras justifiquem a dificuldade apresentada na leitura dos textos oferecidos. Mas um fato é certo: tivemos dificuldades porque não conhecemos textos antigos, textos históricos. Tivemos dificuldades porque não estamos habituados a ler aquilo que não é para nosso uso imediato em sala de aula. E, sobretudo, tivemos dificuldades porque não conhecemos que em determinados períodos da história da nossa língua, falava-se e escrevia-se de maneira diferente.

Um professor que estuda a história da Língua Portuguesa, sabe que os textos de Anchieta e de Vieira situam-se nos século XVI e XVII de nossa história. Sabe, portanto, que a ortografia daquele período baseava-se na fonética e que, por conseguinte, escrevia-se como se falava, por falta de uma normatização lingüística.

Ora, é exatamente o que acontece hoje. Boa parte dos exemplos que apresentei acima não são de alunos contemporâneos nossos. Foram retirados dos textos de Achieta, de Vieira e de outros escritores antigos. E são o mesmo tipo de escrita que os alunos fazem hoje. E o fazem porque escrevem como falam, porque não conhecem a norma, porque os professores não lhes ensinam direito ou porque eles não aprendem o que os professores lhes ensinam direito. O fato é que os grandes erros de hoje foram grandes acertos no passado.
Se um professor que detém conhecimentos de história da língua, saberá que nos séculos XVI e XVII era possível encontrar nos textos em Português:
* Uso de consoantes geminadas
* Uso de letras gregas Y, K e W
* Falta de uniformidade na transcrição de palavras pelos copistas, o que acontecia em função de diferenças regionais, da influência do Latim, da grafia castelhana e por negligência dos próprios copistas
* A vogal I podia aparecer como Y, J ou H (se semivogal, no último caso)
* Duplicação de vogal para indicar tonicidade
* Nasalização representada indistintamente (isto é: não somente antes de P e B) por M e N, e por til (~)
* Troca de V por B, como em aber (=haver)
* C: como fricativa, era sempre surda antes de O e U (particom = partição), antes de Z (faczo = faço); às vezes, tinha valor de Z, como em doncela = donzela
* F: era geminado no início e no meio das palavras
* G e Q: às vezes, mantinha som velar antes de A e I. Outras, para indicar som velar, vinha seguido de U, como em julguava (=julgava) e Guabriel (Gabriel).
* H: ora utilizado no início da palavra ora não (haver, ave). Servia também para indicar vogal aberta ou monossílabo tônico. Além disto, separava hiatos
* J: por vezes, substitui G ( jente ). Podia ser representado por Y ou por I
* L: comumente geminado no meio ou no final da palavra
* M e N: podiam aparecer antes de qualquer consoante, nasalando vogal anterior
* R: geminado comumente no início ou no meio de palavras para distinguir-se da pronúncia branda. Também era grafado apenas um R em palavras como tera (terra)
* S: podia servir para qualquer sibilante surda, ou Z.
* SS: som sibilante; podia aparecer no início de palavras e também podia representar Z
* Em geral, só se dobravam as consoantes quando tinham valores diferentes das simples. Além de R e S, dobravam-se F, L e M. Este último só quando precedido de vogal nasal, como em emmendar. Aqui vale ressaltar que Said Ali não vê razão lógica para se geminar F e L.
* Os proclíticos eram ligados à palavra seguinte, como em deseu (=de seu). Os enclíticos uniam-se à palavra precedente, sem hífen. Às vezes o S aparece intevocálico, como em deveSse
Como podemos ver, o Português daquele período se apresenta como uma língua riquíssima em detalhes e aberta a inúmeras possibilidades de pesquisa a que nós, estudantes não só de Letras, mas, sobretudo, estudantes de nossa própria cultura, de nossa própria história, deveríamos nos debruçar. Primeiro, a fim de conhecer a história da nossa língua; segundo, para conhecer nossa própria história. Sim, porque a história de uma língua é a história das pessoas que a utilizam.

4. CAMINHANDO PARA A CONCLUSÃO

Em primeiro lugar, para iniciar a conclusão desta exposição, quero reafirmar que o Português dos séculos XVI e XVII, mesmo recebendo a qualificação de "clássico", está muito longe de se apresentar como um período lingüisticamente homogêneo, em que fonética, morfológica e sintaticamente, a língua se mantenha regular.

Ao contrário, como pudemos expor, não são raras as ocorrências de termos que se apresentam de duas, três formas diferentes, ou senão, de palavras que são separadas mas aparecem escritas juntas ou vice-versa. Não seria assustador se eu trouxesse para cá algumas redações de alunos meus, nas quais aparecem aquelas mesmas ocorrências do sermão de Vieira.

Disto decorre que precisamos comparar esses dois momentos de língua e entender que no Português clássico, aquele grande número de oscilações ocorre porque a língua está em franca caminhada para seu processo de sistematização. Já nos nossos dias, não. O processo parece ser inverso. Tenho a impressão que se age em prol da dessistematização, se assim podemos denominar o processo pelo qual se escreve como se fala ou como se tem a impressão de que se deva falar, ignorando em grande parte o sistema já há muito instituído.

Isto não é em si mesmo um problema de proporções descomunais, até porque a língua tem sua própria deriva e comumente vai sendo adequada às necessidades dos falantes. Entretanto, torna-se um problema de natureza mais social do que lingüística na medida em que o não domínio da Norma Culta de linguagem é um dos primeiros fatores de desclassificação de candidatos ao preenchimento de vagas em empresas. Neste sentido, não posso deixar de afirmar: a Escola tem, sim, de valorizar outras variantes lingüísticas para tornar os falantes cada vez mais competentes no domínio da linguagem. Porém, não pode, em hipótese alguma, deixar de ensinar a variante padrão, a Norma Culta, o Português dos clássicos. Não pode, porque é este Português que é pedido em todo tipo de exame.

Por fim, o segundo e final item desta conclusão é uma proposta de mudança na visão daquilo que se considera "erro" nas redações escolares. Antes, é necessário ressaltar que a noção de erro é hoje substituída pela de inadequado, porque certas construções podem estar erradas em um dado contexto, mas corretas em outros, e vice-versa. O que propomos aqui é que o professor de Produção de Textos adquira a consciência de que um desvio da Norma Culta, digamos, um problema ortográfico, sintático etc. pode receber um tratamento muito mais agradável do que o de ser simplesmente tachado de "erro". Tal incidência pode se tornar uma oportunidade para que o professor possa se inspirar para buscar as causas daquele desvio, para buscar parâmetros de julgamento e de atuação, e, por fim, para entender que uma palavra como DERREPENTE, já esteve presente em textos do maior orador que a nossa língua já teve. Disto se deduz que o conceito de certo, de errado, de norma, de desvio não é absoluto, mas varia no tempo e no espaço. Portanto, faz-se necessário compreender a língua não só como um conjunto de regularidades - o que justificaria a insistência nas gramáticas normativas e no Português clássico - mas é também um conjunto dinâmico de variedades.

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Referências Bibliográficas

SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 1964.
SILVA NETO, S. da. Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1950.
SPINA, S. História da Língua Portuguesa. III. Segunda Metade do século XVI e século XVII. São Paulo: Ática, 1987.
VIEIRA, A. Os sermões. São Paulo: Melhoramentos, 1963.



Comentários (2)



Luiz A Ferreira escreveu:

" Belíssimo texto! O professor Everaldo consegue, com simplicidade e competência, discutir problemas fundamentais da prática de ensino. Parabéns ao autor e à editora! "
Em: 24/11/2009 às: 11:26:03



Marcelo Misturini escreveu:

" Belo artigo professor Everaldo! Parabéns! Quem me indicou este artigo foi o professor Luiz Antonio Ferreira. Marcelo. "
Em: 04/12/2009 às: 15:20:39


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